terça-feira, 8 de junho de 2010

UMA BREVE VISÃO SOBRE TELEJORNALISMO/SHOW ESTRELANDO: SE LIGA BOCÃO E NA MIRA.

A partir do texto “Quem o Jornal do SBT pensa que somos? Modo de endereçamento do telejornalismo show” desenvolvido pelo Grupo de Pesquisa de Análise de Telejornais/UFBA, surgiu a base para o desenvolvimento dessa pequena crítica destinada aos programas que no momento fazem sucesso na TV baiana no horário de almoço, os populares Se Liga Bocão e Na Mira, comandados por “Zé” Eduardo e Uziel Bueno respectivamente. O tema aqui abordado será as características que fazem com que o público se identifique com os programas citados.
Não é necessário que a TV veicule imagens pesadas para o público saber o caos da cidade de Salvador. Todos os dias a violência mostra a sua face sendo a maior parte dos fatos relacionado ao tráfico de drogas. Infelizmente alguns jornalistas precisam obter reconhecimento e audiência, isso faz com que os mesmos corram atrás dos fatos mais miseráveis da sociedade para expor aos seus espectadores. É isso que ocorre no Se Liga Bocão e no Na Mira. Para começar observa-se os apresentadores. De um lado Zé Eduardo colocando-se como o defensor do povo e do outro Uziel Bueno como o caçador de delinqüentes. Cada um deles com seu estilo próprio e um único objetivo, a simpatia do telespectador. Zé Eduardo se apresenta chocado com os acontecimentos, berra sem nenhum pudor, Uziel aparece sempre de preto e além de gritar põe a voz em tom gutural para chamar mais atenção. O conteúdo dos programas são os mesmos, a criminalidade nua e crua com a exposição dos cadáveres, familiares aos prantos, policiais querendo seus quinze minutos de fama, é a imagem da miséria dessa triste sociedade. No texto sobre o jornal do SBT encontra-se o conceito de Modo de endereçamento: “aquilo que é característico das formas e práticas comunicativas específicas de um programa, diz respeito ao modo como um programa específico tenta estabelecer uma forma particular de relação com sua audiência”. Isso prova que os apresentadores não passam de seres performáticos, pois tudo o que fazem é apenas para envolver o público no drama e no caos da notícia e assim manter os telespectadores atentos.
O cenário do Na Mira é algo bem chamativo composto por alvos, marcas de impressões digitais, no geral é um programa bem mais “assustador” que o Se Liga Bocão. No Na Mira o objetivo é mostrar que ali é o lugar onde os delinqüentes serão julgados, é o ambiente onde a violência vai ser revelada, com as palavras do próprio Uziel Bueno: “Tem o céu, o inferno e o Na Mira no Meio”. No programa de Zé Eduardo o conteúdo das reportagens é o mesmo mais a imagem que é transmitida ao telespectador é outra, o cenário tenta mostrar que o Se Liga Bocão é o lugar do povo, onde ele se sentirá bem protegido, é composto por cores chamativas,o vermelho e amarelo e possuí fotos da cidade.
As reportagens são realizadas por jornalistas de pouca credibilidade nunca antes vistos por trabalhos de qualidade, geralmente saem em “comboio” com a polícia para adentrar os becos da periferia da cidade a procura de delinqüentes. A informação já seria transmitida de forma satisfatória só pelas imagens, porém como em todos os dias as mesmas coisas são vistas é necessário a figura do narrador, este tenta manter a tensão a todo o momento, o importante é criar expectativa, o ápice sempre ocorre nos tiroteios quando o repórter grita “tiros, tiros”. Quando não estão nos pontos mais perigosos da cidade, eles se encontram nas delegacias a procura dos presos recentes, é simplesmente um massacre o que acontece. Os presos são humilhados, não possuem o direito de dar sua versão da história, ao contrário, os jornalistas em questão fazem de tudo para que confessem. O caso é tão assustador que em uma das edições do Se Liga Bocão o apresentador foi “obrigado” a pedir desculpas, pois descobriu-se que um dos “culpados” anunciado no dia anterior na verdade era inocente. Eles tentam fazer o papel da justiça, na verdade, desempenham o papel que o telespectador queria atuar. O showzinho é todo desenhado principalmente nos casos mais dramáticos onde os apresentadores não “suportam o que aconteceu, sentem as dores das vítimas”. Soltam palavras inflamadas de puro ódio para milhares de pessoas e incitam a violência, nessa hora percebe-se a “bela” atuação deles quase derramando lágrimas quando a população resolve fazer justiça com as próprias mãos. No Se Liga Bocão além de expor a violência, se envolve em contenda de vizinhos com a desculpa de ser utilidade pública.
Em “Quem o jornal do SBT pensa que somos” há o tópico “o pacto sobre opapel do jornalismo. Nele é exposto os pactos que são realizados com antecedência para criar a identificação do público e dar cara ao programa. Três pactos são apresentados: vigilância, conversação social e entretenimento. No primeiro, o programa jornalístico quer transmitir uma imagem investigativa, o segundo através das apresentações dos fatos objetiva formar opiniões e o último é mais encontrado no jornalismo temático como crítica de cinema, esportes, etc. O texto deixa bem claro que geralmente um pacto é majoritário porém não impede que outro apareça e para isso deu o exemplo do Jornal Nacional que possui o pacto de conversação social como o seu método primordial, contudo sempre apresenta reportagem denúncia, característica do primeiro pacto. Ainda há os casos dos programas híbridos e foi dessa forma que o jornal do SBT foi classificado. O Se Liga Bocão e o Na Mira também são híbridos. Os pactos de vigilância e conversação social são perceptíveis, além deles é inegável o uso do entretenimento - a que ponto o jornalismo chegou, um programa que expõe violência real gerar diversão – com o uso de prêmios e apresentações musicais.
No inicio deste texto a violência na capital baiana foi abordada. Isso exemplifica outra característica dos programas em questão. A comunicação não se dá por si só, existem dois agentes essenciais, o emissor e receptor, além deles encontramos o ruído. Para que o receptor aceite e compreenda a mensagem é preciso que o emissor realize a transmissão na mesma freqüência do receptor, o ruído é tudo aquilo que possa atrapalhar a comunicação, ou seja, para que este ciclo se complete no Se Liga Bocão e Na Mira o ambiente e os acontecimentos devem ser aproveitados ao máximo só assim a mensagem será criada e transmitida adequadamente. Eles executam esta premissa básica muito bem. 
Em uma das edições do Se Liga Bocão estava sendo exibidas imagens de um acidente envolvendo um motociclista e um ônibus, tudo gravado pela câmera de um aparelho celular. O motociclista infelizmente acabou em baixo de uma das rodas do ônibus, após a exibição, aparece Zé Eduardo chocado com a cena realizando mais uma ótima atuação, logo depois ele diz: “se você também tiver um vídeo interessante mande para nós”. Ele classificou o motociclista esmagado como algo interessante para ser vinculado. É estranho pensar até onde pode ir à mente humana, porém isso fugiria do tema aqui abordado. A situação descrita acima é outro exemplo de como há sintonia entre apresentadores e público. Através da evolução tecnológica se tornou mais fácil a produção de produtos áudio visuais. A partir de uma simples câmera de celular os telespectadores podem se sentir mais próximos de seus programas favoritos e ainda simplificam o trabalho dos jornalistas.
Depois da breve exposição dos fatos fica fácil definir o perfil do público desse telejornalismo/show. São pessoas de baixa renda, com pouca escolaridade que não sabem distinguir uma produção de qualidade e o principal, estão assombrados com a criminalidade em Salvador. São cidadãos que gostariam de estar no papel desses jornalistas, entrevistando, “culpando” os acusados, os seres malignos criados pela sociedade que os cerca. Eles não imaginam, mas devido a todos os fatores econômicos e culturais, poderiam ser eles ali, expostos a humilhações, por algum motivo, sorte ou força de vontade não se transformaram naquilo, combatem com unhas e dentes e usariam da violência caso fosse preciso. São esses os telespectadores do telejornalismo/show.

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